Uma rápida refutação do “Sola Scriptura” em dez passos

Uma rápida refutação do “Sola Scriptura” em dez passos August 20, 2016

[Portugese translation of A Quick Ten-Step Refutation of Sola Scriptura, by Fábio Salgado de Carvalho]

Bible

[public domain / Pixabay]

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1. O “Sola Scriptura” não é ensinado na Bíblia

Os católicos concordam com os protestantes que a Escritura é um “padrão para a verdade” — até mesmo o mais preeminente —, mas não em um sentido de que ela exclua a autoridade de uma autêntica Tradição e de uma Igreja. A Bíblia não ensina isso. Os católicos concordam que a Escritura é suficiente materialmente. Em outras palavras, nesta visão, toda doutrina verdadeira pode ser encontrada na Bíblia, mesmo que o seja implicitamente e indiretamente por dedução. Nenhuma passagem bíblica, entretanto, ensina que a Escritura é a autoridade formal ou a norma de fé isoladamente da Igreja e da Tradição. O “Sola Scriptura” não pode sequer ser deduzido de passagens implícitas.

2. A “Palavra de Deus” refere-se ao ensino oral também

“Palavra”, na Sagrada Escritura, muitas vezes, refere-se a um ensino oral proclamado por profetas ou por apóstolos. O que os profetas disseram era a Palavra de Deus independentemente de se os seus proferimentos foram registrados mais tarde como Escritura escrita. Assim, por exemplo, lemos em Jeremias:

“Durante vinte e três anos a palavra do Senhor tem vindo a mim […] E eu a tenho anunciado a vocês, dia após dia […] Mas vocês não me deram ouvidos […], declara o Senhor. Portanto, assim diz o Senhor dos Exércitos: ‘Visto que vocês não ouviram as minhas palavras […]” (Jr. 25.3, 7-8 [NVI])

Esta foi a palavra de Deus mesmo que algumas delas não tenham sido registradas por escrito. Ela tinha a mesma autoridade que um escrito enquanto proclamação que nunca foi reduzida à escrita. Isto era verdadeiro também para a pregação apostólica. Quando as frases “Palavra de Deus” ou “Palavra do Senhor” aparecem em Atos e nas epístolas, elas quase sempre se referiam à pregação oral, não à Escritura. Por exemplo:

“[…] ao receberem de nossa parte a palavra de Deus, vocês a aceitaram, não como palavra de homens, mas conforme ela verdadeiramente é, como palavra de Deus […]” (1 Ts. 2.13).

Se compararmos esta passagem com outra, escrita para a mesma igreja, Paulo parece tomar o ensino oral e a Palavra de Deus como sinônimos:

“[…] nós lhes ordenamos que se afastem de todo irmão que vive ociosamente e não conforme a tradição que vocês receberam de nós.” (2 Ts. 3.6).

3. “Tradição” não é uma palavra indecente

Os protestantes, muitas vezes, citam os versículos da Bíblia em que as tradições corruptas dos homens são condenadas (e. g. , Mt. 15.2-6; Mc. 7.8-13; Cl. 2.8). Obviamente, católicos concordam com isso. Não se trata, entretanto, da verdade completa. A verdadeira Tradição apostólica é aprovada positivamente. Esta Tradição está em total harmonia e consistência com a Escritura. Neste sentido, a Escritura é a “juíza última” da Tradição, mas não descarta toda a Tradição e autoridade da Igreja (cf. At. 2.42; 1 Cor. 11.2; 2 Ts. 2.15; 2 Tm. 1.13-14, 2.2)

4. Jesus e Paulo aceitam Tradições escritas ou orais que não estejam registradas na Bíblia

a. A referência a “Ele será chamado Nazareno” não pode ser encontrada no Antigo Testamento, mas foi “dita pelos profetas” (Mt. 2.23). Esta profecia, portanto, que é considerada como sendo “Palavra de Deus”, foi transmitida oralmente em vez de ser registrada na Escritura.

b. Em Mateus 23.2-3, Jesus ensina-nos que os escribas e fariseus têm uma legítima autoridade baseada na “cátedra de Moisés”, mas esta frase ou idéia não pode ser encontrada em qualquer lugar do Antigo Testamento. Ela é encontrada na (originalmente oral) “Mishnah”, que ensina uma espécie de “sucessão de ensino” de Moisés em diante.

c. Em 1 Coríntios 10.4, Paulo refere-se à rocha que “seguia” os judeus ao longo do deserto do Sinai. O Antigo Testamento afirma nada sobre tal movimento miraculoso, mas a tradição rabínica sim.

d. “Como Janes e Jambres opuseram-se a Moisés” (2 Tm. 3.8). Estes dois homens não podem ser encontrados na passagem correlata no Antigo Testamento (cf. Êx. 7:. 8ss) ou em qualquer outro lugar do Antigo Testamento.

5. Os apóstolos exerceram autoridade no Concílio de Jerusalém

No Concílio de Jerusalém (At. 15.6-30), vemos Pedro e Tiago falando com autoridade. Este Concílio profere um pronunciamento autoritativo (mencionando o Espírito Santo) que se tornou obrigatório para todo cristão:

“Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor a vocês nada além das seguintes exigências necessárias: Que se abstenham de comida sacrificada aos ídolos, do sangue, da carne de animais estrangulados e da imoralidade sexual. Vocês farão bem em evitar essas coisas.” (At. 15.28-29).

No próximo capítulo, lemos que Paulo, Timóteo e Silas viajaram “pelas cidades” e a Escritura diz que eles “transmitiam as decisões tomadas pelos apóstolos e presbíteros em Jerusalém, para que fossem obedecidas.” (At. 16.4).

6. Fariseus, saduceus e a Tradição oral extrabíblica

O Cristianismo foi derivado de muitas maneiras da tradição farisaica do Judaísmo. Os saduceus, por outro lado, rejeitaram a futura ressurreição da alma, a vida após a morte, as recompensas e retribuições, demônios e anjos e a predestinação. Os saduceus, também, rejeitaram todo ensino oral autoritativo e, essencialmente, criam no “Sola Scriptura”. Eles eram os teólogos liberais de seu tempo. Os cristãos fariseus são mencionados em Atos 15.5 e em Filipenses 3.5, mas a Bíblia nunca menciona cristãos saduceus.

Os fariseus, apesar de suas corrupções e excessos, foram a principal tradição judaica e tanto Jesus como Paulo reconhecem isto. Desse modo, nem os judeus ortodoxos do Antigo Testamento e nem a Igreja primitiva foram guiados pelo princípio do “Sola Scriptura”.

7. Os judeus do Antigo Testamento não criam no “Sola Scriptura”

Para dar dois exemplos do próprio Antigo Testamento:

a. Esdras, um sacerdote e escriba, estudou a lei judaica e ensinou-a a Israel e a desobediência à sua autoridade significava pena de prisão, exílio, perda de bens e até mesmo a morte (cf. Ed. 7.26).

b. Em Neemias 8.3, Esdras lê a Lei de Moisés para o povo em Jerusalém. No verso 7, encontramos treze levitas que assistiram a Esdras e que ajudaram o povo a compreender a Lei. Muito antes, encontramos levitas exercendo a mesma função (cf. 2 Cr. 17.8-9)

Desse modo, o povo, de fato, compreendia a Lei (cf. Ne. 8.8, 12), mas não sem muita assistência, meramente a ouvindo. Da mesma forma, a Bíblia não é totalmente clara em si mesma, mas requer ajuda de professores que estão mais familiarizados com os estilos bíblicos, com o Hebraico, com os antecedentes, com o contexto, com a exegese, com a referência cruzada entre os livros, com os princípios hermenêuticos, com as línguas originais etc. . O Antigo Testamento, então, ensina-nos acerca de uma Tradição e precisa de intérpretes autoritativos, assim como o Novo Testamento (cf. Mc. 4.33-34; At. 8.30-31; 2 Pe. 1.20, 3.16).

8. Efésios 4 refuta o “texto-prova” protestante

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra.” (2 Tm. 3.16-17).

Esta passagem não ensina a suficiência formal, que exclui um papel de autoridade para a Tradição e a Igreja. Os protestantes extrapolam para o texto algo que não está nele. Se olharmos o contexto geral dessa passagem, podemos ver que Paulo faz referência à Tradição oral três vezes (cf. 2 Tm. 1.13-14, 2.2, 3.14). Para fazermos uso de uma analogia, examinemos uma passagem similar:

“E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo. O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.” (Ef. 4.11-15).

Se 2 Timóteo 3 prova a suficiência da Escritura, então, por analogia, Efésios 4, semelhantemente, provaria a suficiência dos pastores e mestres para a produção da perfeição cristã. Em Efésios 4, o crente cristão é equipado, edificado e trazido à unidade e à idade madura, e até mesmo preservado da confusão doutrinária por meio da função de ensino da Igreja. Esta é uma declaração muito mais forte de aperfeiçoamento dos Santos que aquela de 2 Timóteo 3, ainda que não haja qualquer menção da Escritura.

Então, se todos os elementos não escriturísticos são exclusos em 2 Timóteo, então, por analogia, a Escritura, logicamente, teria de estar exclusa em Efésios. É muito mais razoável reconhecer que a ausência de um ou mais elementos na passagem não significa que eles não existem. A Igreja e a Escritura são ambas igualmente necessárias e importantes para o ensino.

9. Paulo, eventualmente, assume que a Tradição que lhe foi transmitida é infalível e autoritativa

“Se alguém desobedecer ao que dizemos nesta carta, marquem-no e não se associem com ele, para que se sinta envergonhado” (2 Ts. 3.14)

“Recomendo-lhes, irmãos, que tomem cuidado com aqueles que causam divisões e colocam obstáculos ao ensino que vocês têm recebido” (Rm. 16.17)

Ele não escreveu sobre “a bastante, em grande parte, amplamente verdadeira, mas não infalível, doutrina que lhes tem sido ensinada.”.

10. O “Sola Scriptura” é um posicionamento circular

Quando tudo já está dito e feito, os protestantes aceitam o “Sola Scriptura” como sua regra de fé recorrendo à Bíblia. Se a eles fosse perguntado por que alguém deveria acreditar no ensino da sua denominação em particular em detrimento de outro, cada um apelaria à “clareza do ensino da Bíblia”. Muitas vezes, eles agem como se não houvesse qualquer tradição que guiasse a sua interpretação.

Isso se assemelha a pessoas que estivessem em lados diferentes de um debate constitucional em que ambas dissessem: “Bem, nós seguimos aquilo que a Constituição afirma, mas vocês não.”. A Constituição dos Estados Unidos, assim como a Bíblia, não é suficiente em si e por si mesma para resolver querelas sobre diferentes interpretações. Juízes e cortes são necessários e os seus decretos são legalmente autoritativos. As decisões da Suprema Corte não podem ser anuladas, a não ser por decisões futuras ou por emendas constitucionais. Em qualquer caso, existe sempre um parecer final que resolve a questão.

O Protestantismo, entretanto, prescinde disso porque ele apela a um princípio logicamente autodestrutivo e a um livro que deve ser interpretado por seres humanos. Obviamente, dadas as divisões no Protestantismo, simplesmente, “ir para a Bíblia” não tem funcionado. Eles podem, eles mesmos, “ir para a Bíblia” apenas e talvez retornar com outra versão doutrinária de alguma doutrina posta em questão para adicionar à sua lista. Ou você acredita que há uma verdade em qualquer disputa teológica dada (seja ela qual for) ou você adota uma posição relativista e indiferente em que contradições são aceitas ou em que a doutrina é tão “secundária” que não importa.

A Bíblia, entretanto, não ensina que existam categorias inteiras de doutrinas que são “secundárias” e que os cristãos podem, livremente, e alegremente, discordar dessa forma. O denominacionalismo e as divisões são vigorosamente condenadas. A única conclusão a que podemos chegar a partir da Bíblia é que aquilo que chamamos de “o tripé que sustenta um banco” — Bíblia, Igreja e Tradição — é aquilo que é necessário para que cheguemos à verdade. Se você bater em qualquer uma das pernas de um banco de três pernas, ele colapsa.

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Meta Descrição (Meta Description): A Bíblia não é a única regra infalível de fé ou autoridade no cristianismo, como ela própria ensina. Aqui está um rápido resumo de alguns dos melhores contra-indicações na Escritura. /

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